O tratamento dos acidentes vasculares cerebrais (AVC) de natureza isquêmica (ou seja, que ocorrem quando há um bloqueio em uma artéria do cérebro) vem experimentando inovações. O maior exemplo ilustrativo disso é a chamada trombectomia, uma abordagem minimamente invasiva.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, cerca de 15 milhões de pessoas são afetadas por um AVC anualmente em todo o planeta. Desse total, 5 milhões ficam com sequelas e outro contingente equivalente vem a óbito.
Esses números fazem dessa uma das principais causas de mortalidade em todo o planeta, tornando ainda mais relevantes tais avanços.
Entenda o que é a trombectomia
Em linhas gerais, a trombectomia é um procedimento endovascular que visa remover o coágulo (ou trombo) que está obstruindo uma artéria cerebral, restaurando o fluxo sanguíneo para o cérebro.
Diferentemente de outras abordagens, como o uso de medicamentos trombolíticos, a trombectomia é realizada por meio de um cateter inserido através de uma artéria, geralmente na virilha ou no punho. A partir disso, o instrumento é guiado até o local da oclusão.
O procedimento é realizado por um neurorradiologista intervencionista. Esse especialista utiliza recursos de imagem, como a angiografia, para localizar o coágulo.
Uma vez que o cateter alcança o trombo, dispositivos especiais, como stents ou sistemas de aspiração, são utilizados para capturar e remover o coágulo.
Após a remoção da formação, o fluxo sanguíneo volta a fluir na área, e o procedimento é finalizado. O paciente é então monitorado de perto para garantir que não haja complicações, como hemorragias ou formação de novos coágulos.
Situações em que a trombectomia pode ser empregada diante de um AVC isquêmico
A trombectomia é indicada principalmente para pacientes com AVC isquêmico agudo causado por oclusão de grandes vasos. Eles geralmente atingem artérias como a cerebral média, a carótida interna ou a basilar, que irrigam áreas diferentes do cérebro.
As obstruções geralmente são resultado do espessamento do sangue a ponto de ele formar um coágulo ou devido ao surgimento de uma placa de gordura ou cálcio, que tem origem em outra parte do corpo, se solta e viaja até as artérias cerebrais.
Esses casos são considerados graves, pois o bloqueio de grandes artérias pode levar a danos cerebrais extensos e sequelas permanentes.
De acordo com estudos recentes sobre o tema, a trombectomia deve ser realizada sempre que possível dentro de um período de até 24 horas após o início dos sintomas. Apesar disso, o ideal é que o procedimento seja feito o mais rapidamente, preferencialmente nas primeiras 6 horas.
Os benefícios dessa abordagem terapêutica
Essa abordagem oferece diversos benefícios em comparação com outras formas de tratamento do AVC isquêmico.
O primeiro deles é o fato de que, assim como outros tratamentos endovasculares, a técnica é consideravelmente menos invasiva que a cirurgia aberta. Como consequência, o tempo de recuperação e o risco de complicações são menores.
Mas a principal vantagem é a restauração rápida do fluxo sanguíneo, o que pode salvar tecido cerebral que ainda está viável antes que ele sofra danos permanentes. Isso resulta em uma redução significativa das sequelas neurológicas, como paralisias, dificuldades de fala, dentre outros sintomas.
As evidências mostram que pacientes submetidos à trombectomia têm uma chance muito maior de recuperação funcional em comparação com aqueles que recebem apenas tratamento medicamentoso convencional.
Eventuais riscos a serem considerados
Todavia, como em qualquer procedimento médico, a trombectomia não está isenta de intercorrências. As mais comuns incluem sangramento no local da inserção do cateter, formação de novos coágulos e danos às artérias durante a passagem do instrumento.
Além disso, há o risco de hemorragia intracraniana, que pode ocorrer quando o fluxo sanguíneo é restaurado de forma abrupta em uma área do cérebro que já estava danificada.
No entanto, tais contratempos são relativamente raros quando o procedimento é realizado por profissionais experientes e em centros especializados. A taxa estimada de complicações graves é de menos de 5%, conforme dados publicados no American Journal of Neuroradiology.
Ademais, a intervenção tem passado por avanços significativos, tanto em termos de tecnologia quanto de técnicas. Novos dispositivos, como stents aperfeiçoados e sistemas de aspiração mais eficientes, têm aumentado a taxa de sucesso do procedimento.
Assim sendo, a trombectomia é uma das técnicas mais avançadas e eficazes para o tratamento do AVC isquêmico, especialmente em casos de oclusão de grandes vasos. Com a capacidade de restaurar rapidamente o fluxo sanguíneo e reduzir as sequelas neurológicas, essa abordagem tem se tornado uma opção cada vez mais relevante.
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Fontes
Trial of Endovascular Thrombectomy for Large Ischemic Strokes
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2214403
Endovascular thrombectomy for acute ischaemic stroke with established large infarct: multicentre, open-label, randomised trial
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(23)02032-9/abstract
Thrombectomy
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK562154/
Endovascular thrombectomy for the treatment of acute ischemic stroke
https://www.scielo.br/j/anp/a/tXg78GCD4QDFghDRWfCrVDp/?lang=en
Stroke, Cerebrovascular accident
https://www.emro.who.int/health-topics/stroke-cerebrovascular-accident/index.html