Um ataque isquêmico transitório representa muito mais do que uma versão menor de um derrame cerebral. Na prática, ele deve ser visto sempre como um importante sinal de alerta que merece não só atenção médica imediata, como também acompanhamento especializado posterior.
Portanto, compreender suas características, possíveis sintomas e eventuais implicações sobre a saúde no longo prazo é fundamental para prevenir complicações mais graves.
O que é um ataque isquêmico transitório?
Um ataque isquêmico transitório, também conhecido pela sigla AIT, é caracterizado por uma interrupção temporária do fluxo sanguíneo para uma região específica do cérebro.
Diferentemente dos acidentes vasculares cerebrais (AVC), essa obstrução é passageira, geralmente durando apenas alguns minutos, o que explica o termo “transitório” da definição.
Durante o episódio, um coágulo ou fragmento de placa aterosclerótica (formada por colesterol e cálcio acumulados na parede arterial) bloqueia temporariamente a passagem de sangue.
Na maioria dos casos, esse obstáculo se dissolve naturalmente ou é deslocado pelo próprio fluxo sanguíneo, restaurando a circulação normal. A American Stroke Association ressalta que pessoas de todas as idades podem ter um AIT. Porém, a possibilidade aumenta à medida que a idade avança.
Quais são as causas mais comuns para um AIT?
As causas do ataque isquêmico transitório estão intimamente relacionadas aos mesmos fatores que provocam o AVC isquêmico. Logo, a formação de coágulos sanguíneos representa a principal origem do problema.
Esses coágulos podem se formar diretamente no coração e serem transportados para as artérias cerebrais. , A aterosclerose, caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura nas paredes arteriais, constitui uma das causas de oclusão de artérias cerebrais, através do desprendimento de placas instáveis e interrupção de fluxo sanguineo temporário em vasos cerebrais mais distantes.
Condições cardíacas específicas também aumentam significativamente o risco. A fibrilação atrial, por exemplo, causa batimentos cardíacos irregulares que favorecem a formação de coágulos. Outras cardiopatias, como insuficiência cardíaca e doenças valvares, também contribuem para o desenvolvimento de trombos.
Distúrbios da coagulação sanguínea, embora menos frequentes, podem predispor ao ataque isquêmico transitório. Nesses casos, o sangue apresenta tendência aumentada para a composição de coágulos.
Quais são os sintomas mais comuns?
Os sintomas do ataque isquêmico transitório surgem subitamente e lembram aqueles observados no AVC. A grande diferença é a duração limitada, que varia de alguns minutos até poucas horas. A partir disso, as queixas notadas frequentemente incluem:
- Fraqueza ou dormência facial, especialmente em um lado do rosto, podendo estender-se para braços e pernas do mesmo lado do corpo.
- Alterações na fala, gerando dificuldade para articular palavras, fala arrastada ou problemas para compreender conversas.
- Problemas visuais, com perda súbita de visão, visão dupla ou redução do campo visual periférico.
- Tontura e perda de equilíbrio, que normalmente estão acompanhadas de outros sintomas neurológicos.
Ao notar um ou mais desses sinais, é fundamental buscar ajuda especializada, mesmo que os sintomas desapareçam sozinhos.
Como é feito o tratamento de um ataque isquêmico transitório?
O tratamento do AIT tem como objetivo identificar e tratar a causa responsável pelo bloqueio provisório e, principalmente, evitar que ele se repita.
Inicialmente, o paciente é submetido a uma avaliação clínica detalhada, com análise dos sintomas, exame físico e histórico médico.
Exames de imagem, como tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética, são relevantes para descartar a presença de lesões e identificar possíveis causas para a obstrução. Na sequência, as ações mais pertinentes envolvem:
- O uso de medicamentos específicos para reduzir o risco de novos coágulos.
- O controle de fatores de risco, como pressão alta, colesterol e diabetes.
- A necessidade de procedimentos endovasculares, sobretudo quando há obstruções graves das artérias carótidas.
Leia também: Os avanços da trombectomia no tratamento do AVC isquêmico
Qual é a conexão entre um AIT e um AVC?
De modo geral, o AIT funciona como um sistema de alerta precoce, indicando a vulnerabilidade associada a prejuízos vasculares na região cerebral. Todavia, enquanto o AIT se resolve completamente sem deixar sequelas permanentes, o AVC causa danos cerebrais definitivos devido à lesão do tecido cerebral.
As evidências reforçam que pessoas que sofreram um ataque isquêmico transitório apresentam risco substancialmente maior de desenvolver um AVC completo. Essa ameaça é particularmente elevada nas primeiras 48 horas após o episódio inicial, permanecendo aumentada por semanas e meses subsequentes.
Nesse contexto, uma publicação do New England Journal of Medicine avaliou o risco de eventos cardiovasculares após um AIT ou um AVC isquêmico leve.
Em um acompanhamento de cinco anos com mais de 3800 pacientes que passaram por um AIT ou AVC leve, foi observado que a taxa de eventos cardiovasculares, incluindo AVC, foi de 6,4% no primeiro ano após o evento inicial, mantendo-se estável em 6,4% do segundo ao quinto ano.
Outra publicação, dessa vez no Journal of the American Medical Association (JAMA), mostrou que dentro de um recorte de 435 episódios de AIT, cerca de 30% dos indivíduos afetados tiveram um AVC em um período mediano de pouco menos de nove anos.
Em resumo, ambos os dados reforçam a necessidade de intervenções terapêuticas adequadas para reduzir o impacto de um ataque isquêmico transitório nos dias, meses e anos subsequentes. Com as medidas preventivas apropriadas, é possível manter a qualidade de vida enquanto se reduz significativamente os riscos futuros.
Antes de ir embora, entenda de uma vez por todas as diferenças de um AVC hemorrágico e um isquêmico.
Referências
Transient Ischemic Attack (TIA)
https://www.stroke.org/en/about-stroke/types-of-stroke/tia-transient-ischemic-attack
Transient Ischemic Attack (TIA)
https://www.ninds.nih.gov/health-information/disorders/transient-ischemic-attack-tia
Transient Ischemic Attack
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK459143
Incidence of Transient Ischemic Attack and Association With Long-term Risk of Stroke https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2775447
Five-Year Risk of Stroke after TIA or Minor Ischemic Stroke
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1802712

