Como o nome sugere, a hipertensão intracraniana idiopática (ou apenas HII) é o aumento da pressão dentro do crânio sem uma causa claramente identificável. Quando não tratada adequadamente, pode gerar sintomas graves e levar a consequências permanentes, relativas sobretudo à visão.
Apesar de os mecanismos da disfunção ainda não serem totalmente compreendidos em todas as circunstâncias, a partir do acompanhamento adequado e o diagnóstico preciso as opções de tratamento ampliam consideravelmente as perspectivas de recuperação.
O que define a hipertensão intracraniana idiopática?
A hipertensão intracraniana idiopática, também conhecida como pseudotumor cerebri, se dá a partir do aumento da pressão do líquido cefalorraquidiano (também chamado de líquor) que envolve o cérebro e a medula espinhal.
Esse fluido incolor protege o sistema nervoso central de impactos, além de fornecer nutrientes e remover resíduos metabólicos da região. Em condições normais, há um equilíbrio constante entre a produção e a absorção desse líquido por uma série de mecanismos de drenagem.
Mas quando há um desequilíbrio, o acúmulo de líquor gera pressão sobre o cérebro e localidades próximas, como o nervo óptico, o qual envia os sinais do olho até o cérebro.
Acima de tudo, o distúrbio surge sem a presença de tumores, hemorragias, infecções ou obstruções identificáveis que justifiquem o quadro. Por isso, o termo “idiopática” é empregado, indicando que a causa exata permanece, em muitos casos, incerta.
Em termos objetivos, considera-se hipertensão intracraniana quando a pressão do líquor supera os 25 centímetros de água.
Quais fatores podem influenciar o aparecimento desse quadro?
Apesar da designação “idiopática”, acredita-se que uma parcela dos casos de HII pode estar relacionada a alterações na drenagem venosa cerebral. Isso se daria por conta de estreitamentos ou obstruções nos seios venosos, que drenam os fluidos da região cerebral.
Assim sendo, o comprometimento dessas vias prejudicaria a absorção do líquor, gerando seu acúmulo e posterior aumento da pressão na localidade.
Seja como for, dentre os fatores que aumentam significativamente o risco de desenvolver a condição estão:
- A obesidade, pois o excesso de gordura abdominal aumenta a pressão abdominal e consequente intracraniana.
- Ser do sexo feminino, sobretudo durante a fase fértil da vida. De acordo com dados disponíveis em artigos no Journal of Clinical Neuroscience, a condição atinge em torno de 10 mulheres a cada grupo de 100 mil indivíduos. Na população geral, esse número varia entre 0,03 e 7,8 a cada 100 mil pessoas.
- A presença de determinadas alterações metabólicas e hormonais.
- Exposição a substâncias específicas, como alguns antibióticos, excesso de vitamina A e determinados hormônios.
- Uma série de outras condições, que incluem doença renal crônica, anemia por deficiência de ferro, lúpus e apneia do sono.
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Quais são os principais sintomas e como é feito o diagnóstico?
O desenvolvimento da hipertensão intracraniana idiopática costuma ser marcado pela combinação de dois grupos de sintomas: as dores de cabeça e as alterações visuais.
Geralmente, a cefaleia é o sintoma mais frequente. Ela tende a ser bastante frequente (diária ou quase diária) acometendo ambos os lados da cabeça. A intensidade é variável, mas frequentemente há relatos de incômodos mais fortes que os habituais. Já os distúrbios visuais costumam evoluir através de perturbações que incluem:
- Escurecimentos passageiros da visão, que duram segundos e podem ocorrer várias vezes ao dia.
- Diplopia (visão dupla) e estrabismo.
- Perda progressiva do campo visual, geralmente começando pela visão periférica, mas que só é notada em estágios avançados.
- Visão embaçada, que pode ser intermitente ou persistente.
Por fim, o zumbido pulsátil é outro sintoma relevante em muitos cenários. Ele causa a sensação de que há um som no ouvido que acompanha os batimentos cardíacos.
Para o diagnóstico, o médico neurologista inicia com uma história clínica detalhada e exame físico completo. Os recursos necessários para uma avaliação adequada incluem:
- Exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética do crânio, para excluir a presença de tumores, hemorragias ou outras lesões.
- Punção lombar, em que se mede a pressão e se coleta uma amostra do líquor, algo relevante para diferenciar a HII de outras condições.
Não raro, a alteração é identificada por conta de exames de rotina no consultório do oftalmologista. Ao examinar o fundo do olho, o especialista pode notar a presença de papiledema, uma alteração anatômica no globo ocular causada pelo excesso de pressão.
Como funciona o tratamento da hipertensão intracraniana idiopática?
O tratamento da HII tem dois objetivos principais: aliviar os sintomas e, sobretudo, preservar a visão contendo a progressão do comprometimento.
Para isso, a abordagem inicial é conservadora. Nesse contexto, a perda de peso é considerada elemento-chave do tratamento se houver sobrepeso ou obesidade. Mesmo reduções modestas da massa corporal (em um patamar de 5 a 10% do peso total, por exemplo) podem ser suficientes para reverter os sintomas.
Do ponto de vista farmacológico, podem ser prescritos medicamentos para reduzir a produção e a pressão do líquor na região do cérebro.
No entanto, quando as recomendações acima não são suficientes e, principalmente, há deterioração visual progressiva, procedimentos cirúrgicos são necessários. O objetivo deles é drenar o excesso de líquido ou impedir o estreitamento da circulação para restabelecer a drenagem adequada na área afetada.
Com essa finalidade, quando se tratar de hipertensão intracraniana secundária à presença de estenoses de seios venosos cerebrais, uma angioplastia para colocação de stents pode ser um recurso valioso. Essa é uma técnica endovascular minimamente invasiva conduzida pelo neurorradiologista intervencionista, com boas chances de sucesso.
Independentemente do tratamento escolhido, com a abordagem adequada a maioria dos pacientes alcança o controle satisfatório da hipertensão intracraniana idiopática. A adesão às recomendações médicas a longo prazo evita uma série de complicações, sobretudo no que diz respeito à perda visual permanente, o principal agravo relacionado ao diagnóstico.
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Referências
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https://jnnp.bmj.com/content/89/10/1088.long
Idiopathic intracranial hypertension: a step change in understanding the disease mechanisms
https://www.nature.com/articles/s41582-023-00893-0
Hipertensão intracraniana idiopática: um guia ilustrado para o residente de radiologia
https://www.scielo.br/j/rb/a/NwCXVj34VcW9ygZVRyfXfdH/?lang=pt
Idiopathic intracranial hypertension: Update on diagnosis and management
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1470211824035206?via%3Dihub
Idiopathic intracranial hypertension: Pathophysiology, diagnosis and management
https://www.jocn-journal.com/article/S0967-5868(21)00585-3/abstract
Idiopathic Intracranial Hypertension
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2908600/#R56

